Céline, ”Viagem ao Fim da Noite”

louis-Ferdinand Destouches mais conhecido por Céline tinha 38 anos quando terminou de escrever e publicou”Voyage au Bout de La Nuit”, seu romance de estreia, com o qual entrou com os dois pés chutando e derrubando a porta de entrada do hall dos clássicos da literatura francesa. Poucos leitores ficaram indiferentes ao livro: Bukowski declarou:”

o maior escritor a ter aparecido nos últimos 200 anos.

Outros grandes nomes da literatura considerada marginal como Henry Miller e Kerouac o consideraram uma inspiração, sendo que Miller reescreveu a trilogia dos Trópicos após a leitura do livro. O impacto da obra era irreversível; chocante, brutal, cheia de descrições pejorativas e cruéis o livro se tornou o favorito de Joseph Stalin, por mostrar as amarguras do mundo capitalista na visão do líder soviético. Por fim, Céline lançou manifestos antissemitas, foi exilado por ter supostamente apoiado o nazismo na França e acabou seus dias no ostracismo.

A obra é uma forte declaração de guerra contra todos os seres humanos; o alter-ego do autor Ferdinand Bardamu não poupa ninguém de sua visão amargurada, descrevendo desde sua passagem pela primeira guerra, ida à África durante um período em que buscava ganhar algum dinheiro e depois sua passagem pelos E. U. A. onde namora uma garota por quem nutre o mesmo sentimento cínico com o qual trata todos os outros seres, um certo afastamento psicológico, Bardamu parece embriagado pelo desprezo que sente pelo próximo e assim, ébrio de asco segue de volta para Paris onde termina os estudos em medicina e começa, muito a contragosto a trabalhar num bairro pobre da cidade.

No decorrer da história de ”Viagem…” abundam personagens estranhos, seres humanos perdidos num estado de total degradação e Céline quando escreve as últimas páginas parece ter cumprido seu dever: jogar uma torta feita de lixo contra a cara de todos os habitantes da terra, e o gosto amargo deixado por sua escrita ainda pode ser sentido como uma influência direta ou indireta em muitos escritores, principalmente por ele ter sido ao lado de Proust, de quem é o oposto pelo total desprezo à forma, um dos primeiros autores do que hoje em dia se chama auto-ficção, romances escritos com bases autobiográficas, algo bastante em voga nos dias atuais onde o ego tem maior preponderância do que nunca. Vide o sucesso do escritor Karl Ove Knausgard.

Avaliação: 1 de 5.

Louis-Ferdinand Céline que nunca fez nenhum esforço para ser um sujeito considerado agradável, construiu uma obra polêmica porém difícil de não reconhecer ali um gênio. ”Viagem ao Fim da Noite” é o tipo de romance que traça um panorama fiel e cruel do destino humano; correr atrás do sustento próprio para viver enquanto sustenta a mesma engrenagem que o mata pouco a pouco.

Julien Green, ”Adrienne Mesurat”

Pego a pena para escrever sobre uma das mais gratas descobertas literárias que tive nos últimos dois anos. Caminhava eu pela biblioteca municipal, olhando as lombadas dos livros, lendo um título aqui outro acolá. meus olhos dardejavam por obras ignoráveis: Sydney Sheldon, Danielle Steel, coisas assim; já havia me aventurado por ali, para distrair pois nunca achava naquela estante nada que prestasse. Mas como o bibliotecário entendia tanto de literatura quanto eu de física nuclear, ele sempre deixava alguma coisa genial em meio aqueles romances supérfluos. Porcarias como Stephen King dividiam espaço com Graciliano Ramos, um dos grandes das nossas letras. Havia também coisas que nunca cheguei a ler mas respeitava naquela estante, Umberto Eco, Scott Fitzgerald, entre outros mais abaixo ,na estante, que sempre considerei desde que li, mestres, Mann, Saramago, Rosa. Havia lixo e joias raras no mesmo lugar, um insulto a minha boa vontade de ficar ali procurando alguma coisa para ler.

De repente me abaixei para catar um livro da Simone de Beauvoir e olhei o título ”Adrienne Mesurat” de Julien Green. Lembrava do nome porque havia lido um elogio de Rosa em ”Ave Palavra” ao escritor norte-americano de expressão francesa. Peguei o livro, porém quase nada sabia de quem era o autor a não ser por pequenas informações que adquirira lendo a página biográfica do autor na wikipédia.

quando em casa abri o livro e comecei a lê-lo, realmente senti que estava diante de um homem com poder de narração muito acima da média. Sua obra, essa em particular me fascinou pela temática: a história de uma jovem solitária que convive com uma irmã doente dez anos mais velha e um pai repressor. Sua vida é marcada pelo vazio, pela frustração. Desesperada ela procura uma saída. Quando um médico de meia-idade se muda para a frente de sua casa ela sente-se impelida à paixão platônica.

sua vida começa a ter sentido, ela passa horas na janela só para ver o médico que poucas vezes sai de dentro de sua casa. O sujeito também aparenta em determinada altura do romance ter problemas de repressão sexual, assim como Adrienne, que logo fica amiga duma vizinha do doutor de mais idade que ela, que ainda está na adolescência. Ela começa a confessar todos os seus sentimentos confiando cegamente na bondade da senhora.

alguns acidentes ocorrem e o desfecho do livro é simplesmente uma cereja marrasquino sobre um bolo extremamente saboroso. Julien Green é um estilista, desenha cenas com as palavras, descreve sentimentos que poderiam ser distantes e pueris, mas com tamanha convicção que não podemos nos afastar emocionalmente da personagem.

Julien Green para mim, como humilde leitor foi o maior escritor de língua francesa no último século! E com certeza é um dos meus 10 escritores favoritos. Qualquer pessoa que goste de Dostoievski gostará profundamente de Julien Green com sua escrita precisa, emocionante, da mais alta estirpe.

SCAB VENDOR: ”VENDEDOR DE CICATRIZES”

JONATHAN SHAW E SUA ESCRITA CRUA E MARGINAL DE ALTA QUALIDADE.

Jonathan Shaw no primeiro volume de memórias Scab Vendor: Confessions of a Tattoo Artist ( 2017 Harper Collins, ainda sem tradução no Brasil) catapulta a série de cinco volumes que contam a história de vida desse grande pioneiro da tatuagem, que tatuou pessoas célebres da cultura Pop como The Pogues, Johnny Winter, Dee Dee Ramone, The Cure, Tupac, Jim Jarmusch, Johnny Depp e Max Cavalera a partir dos anos 70.

Este volume inicia as memórias de Shaw, porém não se encontra nele nenhum clichê de romances de formação. Cigano, Jonathan Shaw ,ao parar em um hotel em Veracruz no México para organizar suas ideias sobre o seu passado, é visitado por um jovem brasileiro, Jaco, que o lembra bastante quem ele mesmo foi e que pede a ele uma tatuagem full body, ou suit tattoo. Ao longo do trabalho dessa tatuagem o personagem principal, estimulado por Jaco, seu jovem cliente, começa a ler um grande calhamaço de papeis; escritos antigos sobre seu passado, trazendo à luz lembranças que vão do início de seu pensamento como pessoa, até o momento.

Cigano, identificando-se com o jovem ingênuo divide com ele a história de sua vida.

As parcas lembranças de sua tenra infância criado por uma mãe com problemas com álcool, distante de seu pai, que era um grande músico de jazz vão afluindo à memória de Shaw que com minúcia nos fala desse começo trágico e conturbado. Memórias de infância, como a vez em que tenta entrar em um estúdio de tatuagem em Los Angeles e é barrado, são depois seguidas ao seu início e afundamento no mundo das drogas; todos esses momentos marcantes na construção de sua persona são explorados com extrema honestidade. Com menor atenção conta displicentemente sobre sua amizade com grandes figuras da cultura pop como Sam Peckinpah, na adolescência, Charles Bukowski, Charles Manson, Jim Morrison, Frank Zappa e Keith Richards nos tempos em que Shaw namorava uma groupie.

Apesar de ter entrada no mundo dos ”poucos escolhidos” que podiam circular entre lugares com pessoas célebres como essas, e quem sabe por isso mesmo, Shaw se afunda no uso de LSD, e depois da heroína que trará danosas ressacas e bodes intermináveis. O envolvimento com drogas o afasta ainda mais do seu seio familiar e o faz sonhar com terras distantes, como o Brasil que uma vez ele havia visto no filme ”Orfeu” e tinha-o fascinado deveras.

A principal busca da narrativa é a de um jovem atrás de sua própria voz literária devorando a literatura enquanto é devorado por ela; e como um grito buscando uma boca sua vocação literária o guia a todo o tempo e nos mostra que Jonathan Shaw é um grande escritor, da mesma grandeza de um Céline, de um Bukowski ou Henry Miller.

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